
Marcos Vinícius de Souza Melo deixou o cargo de secretário-adjunto três dias antes da Operação Merx, que investiga suposto esquema envolvendo cargas contrabandeadas de eletrônicos
]A prisão de um policial civil nesta sexta-feira (28), durante a Operação Merx, trouxe à tona a passagem recente do investigado pela Prefeitura de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo. Marcos Vinícius de Souza Melo, que ocupava o cargo de secretário-adjunto de Segurança Urbana, foi preso sob suspeita de envolvimento em um esquema investigado pelo Ministério Público e pela Corregedoria da Polícia Civil. A apuração busca esclarecer se policiais teriam cobrado valores para permitir a liberação de cargas de celulares, eletrônicos e outros produtos suspeitos de serem provenientes de contrabando.
Marcos Vinícius permaneceu menos de dois meses na função pública e pediu exoneração na terça-feira (25), apenas três dias antes da deflagração da operação. Segundo a Prefeitura, o pedido partiu do próprio ocupante do cargo. A exoneração foi publicada nesta sexta-feira, com efeito retroativo à data do pedido. A cronologia é relevante porque, conforme as informações divulgadas pelo Ministério Público, os fatos que estão sendo investigados envolvendo o policial são anteriores à sua passagem pela administração municipal.
Suspeitas investigadas são de 2024
Segundo o Ministério Público, os episódios que deram origem à investigação ocorreram em 2024, quando Marcos Vinícius ainda atuava como investigador da Polícia Civil nas cidades de Cotia e Barueri. A apuração identificou quatro ocorrências nas quais policiais civis são suspeitos de ter exigido dinheiro em troca da liberação de mercadorias que deveriam estar sujeitas aos procedimentos legais de apreensão. Portanto, os fatos investigados estão temporalmente separados do período em que Marcos Vinícius exerceu o cargo na Prefeitura de São Sebastião, iniciado em julho de 2026.
De acordo com a linha de investigação apresentada pelo Ministério Público, os policiais teriam identificado cargas de celulares e outros produtos eletrônicos suspeitos de contrabando e, em determinadas situações, supostamente deixado de apreender toda a mercadoria em troca de pagamentos. A investigação estima que os quatro episódios identificados tenham movimentado aproximadamente R$ 2,35 milhões em propina. As autoridades ainda trabalham para esclarecer a dinâmica das ocorrências, a participação individual de cada investigado e a eventual destinação dos valores.
Cinco pessoas foram presas
A Operação Merx resultou na prisão de cinco pessoas, entre elas três policiais civis. Além de Marcos Vinícius, foram presos José Adriano Pereira da Silva Nishi e Bruno Moreno dos Santos. Também foram detidos o advogado Sidiclei Almeida e o empresário paranaense Jonathan Vieira. As medidas fazem parte da investigação conduzida pelas autoridades para apurar a possível existência de um esquema de corrupção relacionado à liberação de cargas.
Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 4 milhões em bens e valores dos investigados. A medida integra as providências adotadas durante a operação e busca preservar recursos que possam eventualmente estar relacionados aos fatos sob apuração. O bloqueio, assim como as prisões, está inserido no contexto de uma investigação em andamento e não representa, isoladamente, uma conclusão sobre a responsabilidade criminal dos envolvidos.
Passagem pela Prefeitura durou poucas semanas
Antes de ser preso, Marcos Vinícius havia assumido em julho o cargo de secretário-adjunto de Segurança Urbana de São Sebastião, aproximadamente um mês depois de se afastar da Polícia Civil. Segundo dados disponíveis no Portal da Transparência do município, a função tinha remuneração-base de cerca de R$ 16,1 mil. No primeiro mês registrado, os proventos chegaram a aproximadamente R$ 18,3 mil, enquanto o valor líquido recebido ficou próximo de R$ 14 mil.
A passagem pelo governo municipal, porém, terminou rapidamente. Na terça-feira (25), Marcos Vinícius solicitou sua saída do cargo, três dias antes da operação que resultou em sua prisão. A Prefeitura informou que a exoneração foi publicada nesta sexta-feira, com efeito retroativo. Não há, nas informações divulgadas sobre a investigação, indicação de que os fatos apurados pelo Ministério Público tenham ocorrido durante o período em que ele ocupou a função na administração municipal.
Imóvel em Maresias também foi alvo de diligências
Durante o cumprimento das medidas judiciais relacionadas à operação, um imóvel ligado a Marcos Vinícius em Maresias, na Costa Sul de São Sebastião, também foi alvo de diligências. Fotografias divulgadas por veículos de imprensa mostram áreas da propriedade e objetos que teriam sido localizados durante a ação. O imóvel aparece no contexto das buscas realizadas pelas autoridades, mas eventuais conclusões sobre a origem, propriedade ou relação de cada objeto com os fatos investigados dependem da análise oficial do material apreendido.
Governo fala em responsabilização
A operação também provocou manifestação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que afirmou que policiais eventualmente envolvidos em práticas criminosas deverão ser responsabilizados. A investigação é conduzida pelo Ministério Público, com participação da Corregedoria da Polícia Civil, e busca reunir elementos que permitam esclarecer a atuação dos suspeitos, a movimentação financeira relacionada ao caso e a eventual participação de outras pessoas.
O avanço das investigações deverá depender da análise de documentos, informações financeiras e demais elementos recolhidos durante o cumprimento das ordens judiciais. A partir desse material, as autoridades poderão aprofundar a apuração sobre os quatro episódios apontados pelo Ministério Público e verificar se há outros fatos relacionados ao suposto esquema.
Defesa nega acusações
A defesa de Marcos Vinícius de Souza Melo afirmou que repudia as acusações atribuídas ao policial. Segundo os advogados, documentos e esclarecimentos serão apresentados ao Poder Judiciário e ao Ministério Público e, na avaliação da defesa, deverão demonstrar a “absoluta improcedência” dos fatos atribuídos a ele. As defesas dos demais investigados também são procuradas para apresentar suas manifestações sobre as acusações.
A Operação Merx permanece em andamento, e os fatos ainda serão analisados pelas autoridades responsáveis pela investigação e, posteriormente, pelo Poder Judiciário. As suspeitas divulgadas até o momento não representam uma condenação. Marcos Vinícius e os demais investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência, e somente poderão ser considerados culpados após eventual condenação definitiva.
